Hoje lembrei-me de um lugar lindo, sempre que passo à porta é impossível não parar, visitar e deixar-me levar pelo sonho da infância. É verdade, no meu tempo de criança não havia um lugar assim mágico, como este que encontrei um dia, que ia a caminho da Ericeira e não pude deixar de visitar.
Sempre que algum dos meus correspondentes de fora do país, vem a Lisboa, levo-os lá e todos têm admirado e gostado de visitar. Compram uns souvenirs, postais para mais tarde recordar e comer um pãozinho com chouriço delicioso.
Já descobriram a que lugar me refiro?
Não...então, prossigam a leitura que já descobrem.
Ainda não consegui lá levar os meus netos, mas...ainda não perdi a esperança de o fazer.
É um espaço fantástico para levar as crianças, e sem duvida poder durante umas horas ser transportados para outra era. A nível de alimentação, já não encontramos o típico caldo verde, que durante muito tempo foi o prato do dia, mas ainda existe o famoso pão com chouriço
Aconselho vivamente a todos a visitarem esta aldeia. Localização: Sobreiro, na estrada que liga Mafra – Ericeira. Horário: 10h00 às 18h00
Dia de encerramento: Não encerra. Contactos: Tel.: 261815420

Nascido em 1920, José Franco foi oleiro, ceramista e escultor. Artista português que viu as suas obras, principalmente dentro do estilo da arte sacra, celebrizadas pelo mundo inteiro. Amigo pessoal do escritor Jorge Amado, que decorou a sua casa com obras de José Franco. Em relação a prémios foi-lhe atribuído o prémio na categoria de Arte pelo Rotary Club e foi ainda abençoado pelo Papa João Paulo II.
No entanto, a obra mais conhecida de José Franco é sem duvida a sua Aldeia Típica no Sobreiro. Ainda hoje visitada por miúdos e graúdos, e talvez a precisar de um pequeno restauro, esta aldeia é a fiel reprodução de uma aldeia típica do concelho de Mafra. Ali encontramos os vários costumes, ofícios de uma aldeia do inicio do século XX. Podemos ver também uma sala de aula, um coreto e até um castelo, onde a brincadeira está sempre presente. "...a aldeia parece uma festa, no colorido, na graça, na invenção que nasce das mãos desse homem modesto e simples que, no entanto, é ao mesmo tempo sábio de profundo conhecimento e traz no coração e nos dedos o dom da criação. Nasceu para criar beleza, para dar de si aos demais, para tornar mais rico o património do povo português com as suas imagens, suas figuras de barro, seus vasos utilitários, seus bois de longos cornos seus peixes leves como versos, seus porcos e galos feitos de terra e de lirismo. Parece uma festa, a aldeia..." Jorge Amado sobre José Franco e a sua Aldeia Típica
Teve 15 irmãos; seus pais, extremamente pobres, eram oleiros de profissão, fabricantes das pequenas cerâmicas que os camponeses da região utilizavam nas suas casas: os pratos, as travessas, os jarros de vinho e água, os vasos para flores e pequenas peças de decoração, que também ele começou a fabricar e a vender à porta da sua pequena olaria e nas festas populares e feiras, transportando-as no burrito, que o acompanhava de terra em terra.
Por volta de 1945 José Franco sonhou que poderia, nas horas vagas, construír ao pé da casa em que vive e da sua oficina de oleiro um museu vivo da sua terra, uma espécie de um grande presépio, que reproduzisse os costumes e actividades laborais do tempo da sua infância e alguns aspectos fundamentais e actividades da vida campesina. E assim, dia a dia, a sua obra foi nascendo e crescendo. Num espaço que tem 2500 m2 construiu em escala natural um conjunto de elementos considerados fundamentais na vida do campo: O moinho de vento para moer o trigo. A cozinha rural onde é oferecida a todos os visitantes uma canequinha de vinho «moscatel». A capelinha dedicada a Santo António. A azenha movida a água para moer o milho. A oficina de carpintaria com utensílios do fim do século passado. A «loja da tia Helena» ou mercearia. A cozinha saloia, em cujo forno aquecido a lenha, diariamente se coze o pão da região, que os visitantes podem adquirir no local. As cadeiras do barbeiro e dentista. A casa do lavrador com o quarto e a salinha de estar e, à porta, o banco de pedra onde se sentam os namorados.
A parte mais deliciosa deste maravilhoso conjunto é constituída pelos cenários construídos em jeito e escala de presépio, com figurinhas de barro moldadas por José Franco e que reproduzem uma aldeia com as moradias que são cópias fieis das casas dos arredores de Lisboa dos fins do século passado.
Pela sua importância no panorama português, foi condecorado pelo ex-Presidente da República, Ramalho Eanes, com a comenda de Cavaleiro de S. Tiago. Recebeu ainda a comenda Infante D. Henrique em 2001, era Jorge Sampaio o Presidente da República, e recebeu o prémio de melhor artista em 2005. Até finais de Outubro de 2008 fez algumas peças de artesanato na ‘Adeguinha do Atenueiro', na aldeia que criou.
A 25 de Dezembro sofreu uma queda e partiu o fémur da perna mas acabou por se recompor. Posteriormente, teve vários problemas de saúde dos quais surgiram complicações que levaram à sua morte. Faleceu aos 89 anos, na madrugada de 14 de Abril no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
'Era um homem cheio de ideias. Se não fosse ele a aldeia era uma terra morta. É uma grande perda para o país. Vai deixar muitas saudades', são as palavras que se ouvem. 'Era o património do Sobreiro. Se não fosse ele, muita gente não conhecia isto'. Na aldeia, todos recordam ‘o mestre' como uma pessoa de grande inteligência e com bom coração. 'Tratava toda a gente com carinho, tinha amor por todas as pessoas mesmo sem as conhecer',
Alguém lançou uma sugestão: 'por que não fazer uma escola de olaria com o nome dele?'.
Centenas de pessoas estiveram presentes no funeral do oleiro José Franco, no Sobreiro, em Mafra. O cortejo fúnebre saiu da capela de S. Sebastião e, antes de seguir para o cemitério da localidade, parou junto à aldeia saloia criada por José Franco, onde esteve durante alguns minutos, em silêncio, perante algumas das suas obras.
Um "Grande Homem" que merece a homenagem que lhe faço.
Descansa em Paz, José Franco.